Dirigente voluntário? Sim, mas só obrigado!

Artigo de Opinião do Presidente da Federação de Andebol de Portugal, Miguel Laranjeiro, no jornal Público.

Ano de 1995. Era Presidente da República Mário Soares. Muitos já não se lembram e buscam nos livros de história a informação. Podem ir procurar, agora com a ajuda da inteligência artificial, informação sobre o Decreto-Lei n.º 267/95, que estabelece o regime de apoio aos dirigentes desportivos em regime de voluntariado. Em 30 anos houve uma mudança radical no país, excepto neste regime anacrónico e antiquado.

A pergunta é simples: o papel do dirigente desportivo é ou não importante para a coesão do país, para a promoção de boas práticas e de uma sociedade mais justa, solidária e integradora? Relevante para o apoio na formação de gerações de jovens? Esse mesmo dirigente que dá o seu tempo e dinheiro, e assume responsabilidades nas esferas civil, criminal, fiscal, entre outras. Se assim é, porque nada muda? Apoiar o dirigente desportivo é reconhecer o seu papel fundamental e atribuir um estatuto compatível como contrapartida mínima da contribuição que este deixa na sociedade.

Temos um envelhecimento galopante das pessoas envolvidas nos clubes e nas federações. Como bem se percebe que isso aconteça. Hoje a vida no trabalho mudou drasticamente, e a gestão da vida familiar é muito diferente, não havendo qualquer incentivo que contrarie essa realidade.

A Confederação do Desporto de Portugal colocou em cima da mesa algumas propostas de âmbito fiscal que importa relevar. Desde logo, o reconhecimento fiscal da função de dirigente associativo voluntário e a possibilidade de dedução de parte das despesas efectuadas na função ou ainda sobre o papel das autarquias na concessão de isenções e incentivos. Vão no sentido certo. Deixo outra: chegará o dia em que a majoração na idade de reforma terá de ser uma realidade. Não é possível continuarmos a escamotear esta situação. O risco é grande e implica perdermos uma grande comunidade de pessoas que dão muito mais ao país do que alguma vez receberão. A discussão do Orçamento do Estado (OE) é uma boa ocasião. Haja coragem.

O desporto e a actividade física serão sempre elementos fundamentais nas áreas da saúde, da formação e da educação dos mais jovens, da igualdade de oportunidades e de integração, da valorização e do respeito pelo outro, qualquer que ele seja e de onde venha, do sentido de pertença a uma comunidade, local ou nacional. Criam pontes entre diferentes gerações, culturas e contextos socioeconómicos. E os dirigentes desportivos, mais uma vez, preenchem um papel que o Estado nunca conseguirá colmatar.

Em altura de discussão do OE, e para quem tem preocupações legítimas com a vertente financeira a afectar ao desporto, deixo aqui uma sugestão: o Governo deve promover rapidamente junto do Instituto Nacional de Estatística uma nova conta satélite do desporto (a última foi referente ao triénio 2010-2012) e aí veremos a importância económico-financeira do desporto. E estou certo de que, para quem ainda tenha dúvidas, o desporto passará a ser visto como um investimento e nunca como um custo.

Uma última nota sobre o prometido Plano de Desenvolvimento para o Desporto. Não é possível projectar edesenvolver esseplano sem ultrapassar o problema de falta de articulação entre aactividade desenvolvida pelos clubes, as autarquias e o Desporto na Escola; sem que esteja resolvido o desafio do modelo de financiamento do desporto em Portugal, em todas as suas dimensões (pública, privada e complementar); sem que sejam implementados um modelo e um regime fiscais verdadeiramente adequados às actividades exercidas, promovendo e projectando mais emelhor desporto. O desporto está preparado para responder positivamente aos desafios, assim sejam dadas as necessárias condições.

Miguel Laranjeiro
Presidente da Federação de Andebol de Portugal 

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